Rebento .

Posted in Uncategorized by Vinícius . on July 30, 2010

Eu acho que é tudo uma questão do que fazer com a erupção que começa no estômago e termina em palavras, ditas ou escritas.

Eu posso me entregar à ela, chorar lágrimas feito lava, ou engoli-la, sem um único gole de água.

E tenho querido a segunda alternativa. Tenho escolhido escrever alternativo ao invés de fado, ou qualquer palavra mais bonita de se ler. Tenho escolhido as coisas bem assadas, me privado de saborear todas as nuances do sangue escondido nas fibras da carne. Tenho vontade, inclusive, de deletar as linhas anteriores, sabe, pelo lance da carne.

Assentar a poeira, preferir a calmaria, o distinto, não por sentir-me amadurecido, mas por sentir-me outro.

capítulos alheios.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on July 19, 2010

escrevendo os capítulos de mim, pude ver que, escolhido um para desenrolar, outros milhões deixariam de ser meus.

eles estarão sempre ali, entretanto, com a garantia de me perturbar sempre que o capítulo que me pertence for duro ou real demais.

eu sempre terei os capítulos fantásticos, que não pertencem ao mesmo lugar que todos os outros, para visitar.

não posso vivê-los, porém.

e eu me prometi, quando visitei aquele último capítulo sem dono, que não choraria novamente, ao abandonar os outros tantos.

não chorarei nesse, mesmo que tenha sido o mais belo.

ele não é meu.

vou escrever os próximos parágrafos duros, de um capítulo gelado e inesperado.

um capítulo meu.

Texto descritivo com base no poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, para uma aula chata.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on June 1, 2010

Era um homem, desses como qualquer um, com um plano, uma casa e filhos. Quando não só mais um, era um homem de ambição, desses que mais que dinheiro, quer satisfação. Acordava todos os dias e tomava seu café da manhã, trabalhava mais horas do que o plausível, assim como antes havia estudado mais horas do que o convencional, parava para um bom almoço e seguia a rotina, como quem busca um prêmio no fim do túnel composto pelo seu esforço. Mas era um homem, desses como qualquer um. Daqueles que ama de verdade, que comete sacanagem, que também sente saudades. Um homem desses que come às pressas, que mal vê o que compra, logo tem que comprar outra coisa.

Era um homem limpo, de roupas asseadas, bom senso no agir e em cada peça de roupa. Um homem singelo, desses que passa desapercebido até surpreender alguém, para o bem ou para o mal. Desde pequeno, era desses que tirava boas notas na escola, escolhia as pessoas à sua volta, com família estável e bonitinha. Enfim, um homem desses, como qualquer um.

Era tão bom ou tão mal quanto qualquer um, desses que tem um carro importado, mal sabendo da possibilidade de ser um desses que trabalha pelo que come, e só. Era um homem desses que ignora a existência do azar, que escarnece da miséria, que teme mais um mais rico que ele do que a multidão de mais pobres às suas costas.

Era um homem nesse dia, então, desses como qualquer um, quando entre os detritos catava comida, sem casa, família, status, saúde ou uma moeda maior que dez centavos, sequer. Um homem sujo, de roupas maltrapilhas, umas peças grandes demais, outras demasiado pequenas, nenhuma que parecesse costurada em seu corpo. Era um homem desses, como qualquer um, quando engolia lentamente um pedaço qualquer de lixo-comida e lembrava de todos os filés que vorazmente engolira, um dia, como um homem desses, como qualquer um, que tem filé no prato, todo dia. Era um homem desses, como qualquer um, quando na verdade era um bicho.

Banho.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on May 23, 2010

Essa tarde tomei um banho. Um banho de cigarros a quem forcei beijar a chama do isqueiro. Um banho de erva mate, de árvore, de pessoas que se abraçam aos pulos, de grama, de encontros e despedidas na sombra do corriqueiro.

Essa tarde eu vi o vento tomar conta do aguaceiro, mantendo secos os meus pés, cabeça e dedos. Essa tarde lembrei de como nosso quarto era coberto de grama das mais verdes e cobertas das mais úmidas, do nosso chão coberto de amor e incerteza, lembrei de como sorrias como artifício e de correr na chuva.

Essa tarde tomei um banho da lembrança de quando era uma criança e temia chutar as pedras na rua para não provocar um terremoto aos asiáticos e também pensei em como seria engraçado se alguma daquelas tantas pessoas escrevesse em um pedaço de papel a história de um menino com cara de cara, que tragava o mate e tomava um cigarro, engraçado se a pessoa escrevesse que ele era solitário ou que lia Caio com a aparente certeza de que Caio escrevera encostado naquela mesma árvore, frases desconexas em busca da redenção.

Essa tarde eu temi que os malabaris caíssem e a cena fosse de conserto quando até então era de concerto.

Essa tarde eu vi pessoas parando para admirar o tempo, vi meninos de mãos entrelaçadas, veias ocultas em veias grosssas, e vi meninas alisarem os dedos de outras, talvez preferindo tais dedos à um recém-nascido.

Essa tarde eu vi a mim mesmo, datilografando pra dentro, a voz muda do pensamento, escrevendo sobre tudo no que de papel tinha nada,  preocupado que se em papel escrevesse, não sobrasse mais grama e as pessoas não mais cobrissem o chão com panos, desistissem do assento e sumissem. Vi a mim mesmo roubando companhias, analisando o pequeno canino que rolava entre insetos com mais desenvoltura que rolo eu entre humanos.

Essa tarde me faltou balas e doçura, me sobrou compreensão da morte como partir para um lugar cheio de desistentes, como eu. Essa tarde me sobraram certezas, sentimentos remetentes à casa, colo e calor.

Essa tarde eu vi o moço sendo bonito, mesmo feio, e o menino sendo velho, mesmo vestido das cores do arco-íris e mais todas as outras. Essa tarde eu fumei com os dedos, baforei pelos olhos.

Essa tarde foi mais uma parecida com um cemitério, cheia de carcaças enterradas sobre meus pés.

Essa tarde eu tomei um banho mais quente que o do chuveiro e estou mais limpo que de sabonete.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on April 14, 2010

Havia uma velha na calçada, dia desses, enquanto eu, sentado no ponto de ônibus, lia Crime e Castigo como quem comete um crime ou sofre um castigo, e ela olhou pra mim, pra dentro dos meus olhos, acho que até mesmo pra dentro do meu coração e virou o rosto.

Eu resolvi terminar quantas páginas fossem possíveis, do livro, até que elas enganassem o vazio no peito ou a vontade de esmurrar a velha que no segundo anterior eu quis que fosse minha avó.

Ela havia olhado para mim como para quem olha um crime e consegue conceber seu castigo.

Voltei pra casa, acabei de ler o livro e decidi que ninguém olharia para dentro de mim novamente.

Poe, Bloom e a Vida.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on March 16, 2010

Após um dia inteiro vivido na mais completa inércia mental, a obrigação de ler quatro contos e uma análise de autoria de Edgar Allan Poe ( de quem nunca me prestei a ler nada) e a introdução à um livro de Harold Bloom entitulada “Por que ler?” despertaram-me com tal pensamento inicial: “Por que, diabos, ler algo que propõe uma justificativa à leitura que corresponde à cadeira de Leituras Orientadas DOIS e mais quatro contos que me soam bizarros do tal Poe?”

Embora meus motivos para tal questionamento possam, facilmente, resumir-se em apenas um, preguiça, eu acabei por refletir sobre isso desde o término da leitura dos quatro contos até o da introdução do Bloom.

Não, isso não se deu devido à falta de algo mais interessante pra pensar ( como sobre o que eu estava lendo ), mas, sim, porque me surpreendi apaixonadamente submerso na leitura dos tais contos. Sempre imaginei que gostaria dos contos de Poe, quando os lesse, portanto não se trata de uma simples mudança de opinião mediante contato tal qual aconteceu na primeira vez que comi couve depois de tanto refugá-la. Nunca refuguei a idéia de ler Edgar Allan Poe, mas a vontade de fazê-lo nunca senti, também, assim como senti quando vi o prato de couve refogada, com queijo.

A surpresa está no fato de que, mesmo que meu único motivo para estar com esses contos em mão foi que, além de tê-los em uma lista obrigatória designados para a data de hoje, minha atual colega de apartamento, amiga e também colega da tal cadeira, os largou no meu colo, assim como o texto do Bloom, eles causaram-me um bem inexplicável e foram totalmente feitos para mim e para esta noite.

Depois de dias de abstinência literária, salvo a leitura aos arrastos de “O Amor nos tempos do Cólera”, e de questionamentos sobre o que devia eu ler ou sobre meus reais motivos para ler, encontro aparentes respostas para tais na satisfação quase alimentar que senti ao concluir a leitura de “O Corvo” e de sua análise ( “Filosofia da Composição”), ambos escritos por Poe e depois encontro essas respostas, tais como as concebi, grafadas por Bloom na tal introdução.

O fato de que li os referidos textos um na seqüência do outro, assombra-me mais ainda.

Quando Bloom, entre citações, nos diz que devemos ler buscando o ‘sofrido prazer’ e que esse prazer se encontra na empatia natural entre leitor e obra, leitor e escritor, consuma-se o orgasmo literário desta noite, definitivamente.

Sonho, então, redigindo essas palavras, que não podiam ser escritas senão agora, com o dia em que uma lista de orientações literárias aparecerá em minha frente, tendo como critérios de seleção e ordem de leitura nada além da equação que promoverá meu encontro com meu prazer sofrido.

Eu então lerei, sem cessar, encontrando coerência, como nunca antes, entre as palavras e a vida que me cerca, tirando proveito de cada verbete e construção. Viverei mais do que leio, assim como desde já me sinto mais na obrigação de viver do que na de ler o cânone.

Ignorante da Ignorância

Posted in Uncategorized by Vinícius . on March 5, 2010

Tenho, espalhados pela cama, três livros:  “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera, “O ovo apunhalado” de Caio e “Juízo Final” de Sidney Sheldon.

Quero devorá-los nessa tarde, apenas nessa tarde. Passo os olhos pelo Kundera, toco com a ponta dos dedos o Caio e sinto-me atraidíssimo pelo possível mergulho na imagem da mulher loira, o homem envelhecido e os montes e explosões na capa do Sheldon. Quero ler o que me engole, eu acho, não o que devo engolir -  e esse seria o Sheldon.

Tenho esse carinho por leituras que me arrastam para uma realidade artificial, com emoções cronológicamente bem posicionadas, que me fazem iludir.  Bem, eu poderia me entregar ao Sheldon, certo? Mas essa maldita consciência de que as aulas começam na semana que vem, de que cursarei uma disciplina intitulada “Leituras Orientadas II”, me faz pensar que essa não é a melhor orientação. Incomoda-me mais ainda o fato de que chama-se, a disciplina, “Leituras Orientadas II” e que foi precedida por “Leituras Orientadas I”, da qual mal lembro as obras orientadas, com exceção da única que li e das que desisti.

Não que Kundera vá ser orientado nessa cadeira ou então Caio, mas que algo me diz que Sheldon não é orientado nem pela disciplina nem por qualquer professor  considerado bem-sucedido. Tampouco que eu realmente me importe com o suposto êxito de tais, mas sim que eu quero fazer algo realmente certo, que eu quero sentir-me fazendo algo esperável de um estudante de Letras.

Sendo assim, me ponho a negar que nunca li o que devia nem o que era esperado ou admito que nasci pra ler coisas que me distraiam da mesma forma que o Big Brother Brasil o faz e escrever outras que eu gostaria que um dia fossem indicadas em “Leituras Orientadas”?

Ao invés de decidir, resolvo questionar se tais grandes escritores leram, realmente, o que lhes era indicado ou se entregaram aos prazeres do Harry Potter da época. Fico, então, ainda mais perturbado, porque acredito que eles leram o sensato e, eu, preguiçoso que sou, gostaria que não o tivessem feito.

Não quero aprender a escrever, eu acho, nem as regras todas. Quero escrever bonito, do jeito que achar bonito.

Logo, meu desejo aparenta ser o de que eu escreva para mim e as pessoas venham a ler, amar e indicar à tantas outras, que me colocarão num pedestal, ignorantes de que a literatura que conheço inclui varinhas mágicas, vampiros, explosões e montes de capa.

Então, encerro esse texto sem a certeza de qual livro vou devorar, sem saber se vou fumar um cigarro e regalar-me no ócio ou mesmo se um dia vou ser lido por alguém. Contento-me, porém, secretamente, em escrever besteiras distrativas-terapêuticas e versos de dor, repletos de ignorância gramatical. Volto à tortura de sempre  -  a de querer ignorar sem ser um ignorante.

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